January 28, 2005
Aqui, hOjE
«Celadon: uma comédia portuguesa», de Ana Bola
Centro Cultural Olga Cadaval

28-01-2005
22h00
Entrada: EUR 20,00 (1ª plateia) / EUR15,00 (2ª plateia e balcão) / (-EUR 2,50: <18, >65)
Maria Rueff (Actor / Actriz)
Ana Bola (Actor / Actriz)
Nuno Meira (Desenho de Luz)
Maria João Cruz (Dramaturgia)
António Pires (I) (Encenação)
Ana Bola (Texto)
João Pinto (II) (Vídeo)
Duas «escultoras de nails» (vulgo manicures) que trabalham num forum (expressão high-tech para Centro Comercial). Falam das suas «vidinhas» mas também dos seus sonhos. Chegam rapidamente à conclusão que para além de saberem executar nails em porcelana, em gel, com piercing ou sem piercing, não sabem fazer mais NADA. Então saber fazer nada é sem dúvida o melhor passaporte para a fama, que, no fundo, é o grande objectivo das duas: serem famosas!
Celadon é uma comédia que pretende, em primeiro lugar, fazer rir.
Publicado por Baski às 05:15 PM | Comentários (2)
January 24, 2005
a NÃo perder

Dead Combo vs. Dead Combo
"Que som sairá vencedor deste duelo de homónimos: o acústico dos portugueses ou a pop electrónica dos finlandeses? O resultado deste encontro entre um e outro Dead Combo está na galeria Zé dos Bois, em Lisboa, no dia 27 de Janeiro.
As armas escolhidas pela dupla finlandesa são: guitarra, moog, drum machine e microfone. Deles se diz que são uma via aberta para a ressurreição do som alternativo dos anos 80. Quanto ao duo "tuga", formado por Tó Trips (guitarra) e Pedro Gonçalves (contrabaixo), vão a combate com a melancolia dos "fados-western-mouriscos" que encontramos em "Vol.1", considerado um dos melhores álbuns portugueses de 2004"
Publico on-line - http://lazer.publico.clix.pt/artigo.asp?id=120125
Publicado por Baski às 08:35 PM | Comentários (1)
Portugal, Hoje - O Medo de Existir
"Os acontecimentos não influenciam a nossa vida, é como se não acontecessem. Por exemplo, quando uma pessoa ama, esse sentimento não afecta a outra pessoa, objecto do amor. Quando acabamos de ver um espectáculo, não falamos sobre ele. Quando muito, dizemos que gostámos ou não gostámos, mais nada. Não tem nenhum efeito nas
nossas vidas, não se inscreve nelas, não as transforma. Ainda outro
exemplo: o primeiro-ministro, Santana Lopes, classificou a dissolução
da Assembleia da República pelo Presidente como "enigmática". Não
disse que era incorrecta ou injusta, mas "enigmática", o que é a forma mais eficaz de a transformar em não-acontecimento."

Portugal, Hoje - O Medo de Existir" (2004).
José Gil - Hesitei muito antes de o publicar. Decidi fazê-lo, porque
acho que estas coisas devem dizer-se publicamente, e não apenas em
circuitos fechados, como habitualmente. E também porque penso ter
encontrado um fio condutor, que dá unidade a tudo o que afirmo.
Entrevista em "continuar a ler"
José Gil
Domingo, 16 de Janeiro de 2005
Um dos maiores pensadores de todo o mundo José Gil, 65 anos, autor e
professor catedrático de Filosofia na Universidade Nova de Lisboa,
define-se como especialista no "pensamento filosófico do corpo". Entre
a regência de várias cadeiras de Filosofia contemporânea e a
orientação do mestrado em Estética, encontra tempo para a escrita. É
autor de numerosos ensaios, artigos em revistas culturais, entradas em
enciclopédias e livros de reflexão filosófica. Os seus temas vão desde
Fernando Pessoa e Salazar até à dança e a pintura. Em 1990 ganhou, com
obra "Cemitério dos Desejos", o Prémio Jacinto Prado Coelho.
Recentemente escreveu "A Profundidade e a Superfície - Ensaio sobre 'o
Principezinho', de Saint-Exupéry" e, agora, "Portugal, Hoje - O Medo
de Existir".
Antes de ir para França, onde se licenciou em Filosofia, na
Universidade de Sorbonne, em 1968, estudou Matemática na Faculdade de
Ciências de Lisboa.
Em Paris, foi aluno, admirador e amigo do filósofo Gilles Deleuze. Em
1982
completou o doutoramento, na Universidade de Paris 7, com uma tese
sobre "O Corpo como Campo de Poder". Ensinou no Collège International
de Philosophie, em Paris, na New School for Dance Development, em
Amesterdão.
Regressou a Portugal em 1976, para desempenhar o cargo de adjunto do
secretário de Estado do Ensino Superior e da Investigação Científica
do VI Governo Provisório. A última edição da revista francesa "Nouvel
Observateur" considera-o um dos "25 grandes pensadores de todo o mundo"
Pública - Depois da leitura do seu livro, é impossível não se ficar
deprimido.
José Gil - Hesitei muito antes de o publicar. Decidi fazê-lo, porque
acho que estas coisas devem dizer-se publicamente, e não apenas em
circuitos fechados, como habitualmente. E também porque penso ter
encontrado um fio condutor, que dá unidade a tudo o que afirmo.
P. - É aquilo a que chama "não inscrição". Que significa?
R. - Significa que os acontecimentos não influenciam a nossa vida, é
como se não acontecessem. Por exemplo, quando uma pessoa ama, esse
sentimento não afecta a outra pessoa, objecto do amor. Quando acabamos
de ver um espectáculo, não falamos sobre ele. Quando muito, dizemos
que gostámos ou não gostámos, mais nada. Não tem nenhum efeito nas
nossas vidas, não se inscreve nelas, não as transforma. Ainda outro
exemplo: o primeiro-ministro, Santana Lopes, classificou a dissolução
da Assembleia da República pelo Presidente como "enigmática". Não
disse que era incorrecta ou injusta, mas "enigmática", o que é a forma
mais eficaz de a transformar em não-acontecimento.
P. - E, não tendo acontecido, ninguém é responsável.
R. - Exactamente. Pode-se continuar como se nada se tivesse passado.
Os acontecimentos não se inscrevem em nós, nem nas nossas vidas, nem
nós nos inscrevemos na História. Por isso, em Portugal nada acontece.
P. - Isso vem de onde?
R. - Do medo. E da falta da ideia de futuro. Vivemos num presente que
se perpetua. Não se inscreve em nós o futuro nem o passado, a
História.
Porque
temos medo.
P. - E de onde vem o medo?
R. - Uma vez fiz essa pergunta a José Mattoso. Perguntei-lhe se vinha
do salazarismo. Ele respondeu: "Muito antes disso." Mas não precisou
de onde.
Acho que ninguém sabe. Claro que no chamado "antigo regime", ou no
feudalismo, imperava um medo real, físico.
P. - Mas isso acontecia em toda a Europa. Específico de Portugal é
esse medo não ter cessado?
R. - Sim. Existiu durante o salazarismo, que vivia do medo. Tínhamos
medo de tudo.
P. - Mas era um medo hierárquico, de cima para baixo. Como se> transformou num medo do nosso semelhante?
R. - Acho que no salazarismo já havia um medo do semelhante, além do
hierárquico, que desapareceu, porque estamos numa democracia. Mas
herdámos o medo, que se transformou. Acho que a principal razão foi
por que não criámos suficientes instrumentos de expressão.
P. - É através da expressão que nos podemos livrar do medo?
R. - Nós temos uma pobreza enorme de expressão em relação à nossa
existência. O que sabemos de nós, hoje, é pouquíssimo. Por exemplo: o
que uma mulher pode sofrer, com a sua condição de inferioridade
social, com os dramas domésticos... Tudo o que se diz, mesmo o que
aparece na literatura, não exprime o que ela poderia sentir, e acaba
por fazer com que ela não possa sentir o que verdadeiramente sente.
P. - Não pode sentir, porque não o pode exprimir?
R. - Sim. A expressão abre para o fundo, não apenas para fora. Mas nós
estamos agarrados a um texto e não temos forças para sair dele.
P. - Uma espécie de norma?
R. - É o texto da sociedade normalizada, do bom senso, do política,
social e afectivamente correcto. Assisti há dias a uma discussão de um
casal, num jardim. O marido dizia-lhe: "Não aqui! Não aqui!" E a
mulher calava-se logo. Temos um texto que nos diz o que podemos viver.
P. - É o medo que nos impede de rasgar esse texto?
R. - Nós temos medo de experimentar. Porque temos medo do que irão
dizer de nós. Partimos sempre do princípio de que o que vão dizer é
negativo, desvalorizante. Dificilmente alguém dirá: "Que bom o que tu
fizeste.
Estou
muito contente." Não. Vão-nos decerto criticar. Isso cria logo um medo
que nos paralisa. Faz com que tenhamos prudência. Bom senso.
P. - Mas a prudência e o bom senso poderiam ser atitudes positivas,
para nos guiarem na acção...
R. - Qual acção? A prudência paralisa a acção.
P. - Então não é uma verdadeira prudência.
R. - Pois não. A verdadeira prudência seria uma estratégia para medir
e modular a acção, à medida que ela se desenrola. Mas nós não queremos
é agir. Porque a sociedade portuguesa, ao contrário de outras, é
fechada, não tem canais de ar, respirações possíveis. É uma sociedade
suavemente paranóica. As pessoas estão demasiado conscientes de si
próprias, o que é um horror. Conscientes da imagem que possam
produzir, da sua presença como imagem nos outros. Isso é paralisante.
P. - Damos muita importância à nossa imagem?
R. - É uma obsessão. Estamos sempre a falar da auto-estima, esse termo
horroroso.
P. - O que há de errado com a auto-estima?
R. - Essa ideia reflexiva, de nos amarmos a nós próprios... Em vez de
estarmos virados para fora, para os outros, para o mundo. Só nos
podemos afirmar agindo, exprimindo-nos - não voltando-nos para a
autocomplacência.
Tudo o que é válido vem "de fora". Nós ainda temos essa ideia de que é
preciso começar por uma transformação interior... Mas, em Portugal,
não existe um "fora".
P. - Isso quer dizer que não existe um espaço público?
R. - Não, não existe. O salazarismo extinguiu-o. Depois do 25 de
Abril, passámos do zero para o máximo de expressão. Mas não tínhamos
os instrumentos para essa expressão. Por isso, as forças reais do
poder-saber, políticas, voltaram a dominar. Toda a nossa expressão
individual, social, passou a reduzir-se ao discurso político. E no
espaço público instalou-se em força um dispositivo que ocupou o lugar
todo: a televisão, e os "media"
em geral.
P. - Os "media" não são espaço público? Funcionam em circuito fechado?
R. - Movem-se em circuito fechado. Têm uma acção de absorção. Só se
existe se se aparecer na televisão. Mas estar e aparecer na televisão
não é a mesma coisa do que viver a vida, na materialidade das ruas e
do tempo.
P. - Mas isso não é um fenómeno exclusivamente português.>
R. - Não, mas em Portugal a televisão criou um espaço de imagem antes
de termos passado por aquilo a que podemos chamar um "espaço de
terrível liberdade", de experimentação, de inscrição, que foi a
modernidade.
P. - Houve um salto. Mas isso nunca se vai recuperar.
R. - Com certeza que não se vai voltar atrás. Mas é preciso recuperar
aquilo que nos é sugado por esse espaço de imagem e que é a vida dos
corpos. Os acontecimentos da existência, no que têm de invenção. Na
televisão tudo está formatado, não há imprevisto, encontro. O
acontecimento é o resultado de um encontro. Mas nós temos medo do
acontecimento.
Medo da
mudança, medo do futuro, medo do julgamento dos outros, medo de não
sermos capazes. Medo de não estar à altura do acontecimento.
P. - É um medo da responsabilidade, um medo infantil?
R. - Sim, a nossa sociedade tem algo de infantil, mas sem a vivacidade
das crianças. É a outro nível que temos de ter vida. O português não é
um adulto autónomo por si. Uma comunidade de crianças não é o mesmo
que uma comunidade de adultos. Nós ainda não chegámos à comunidade de
adultos.
Há
pormenores... o tratamento por "pá", por exemplo...
P. - Traduz uma grande familiaridade, ou é outra coisa?
R. - É o reconhecimento de que o homem é nu, para usar uma
terminologia de Hanna Arendt.
P. - Serve para colocar o outro ao mesmo nível, como que a dizer-lhe:
a mim não me enganas?
R. - Sim, e somos iguais. Vou contar-lhe uma cena que me espantou:
quando o Jorge Sampaio era presidente da câmara, apareceu na televisão
a passear pelo Casal Ventoso com uma série de delegados de Bruxelas.
Quando foi abordado por um drogado, disse-lhe: "É pá, afasta-te, que
estou aqui a ver se sacamos algum dinheiro a estes tipos." Isto é
extraordinário.
P. - Não resistiu a estabelecer uma cumplicidade com o drogado.
R. - Sim, como se ele fosse da mesma...
P. - Laia.
R. - Exactamente, laia. Nós, que somos iguais, inferiores, estamos a
ver se sacamos... O Sampaio é muito expressivo de certas coisas
portuguesas.
P. - Cultivamos uma intimidade forçada, pouco natural, promíscua?
R. - Sim, há uma promiscuidade social que se deve à falta de autonomia
individual. O salazarismo infantilizou-nos, fez-nos viver num mundo
fictício e sugou-nos todas as forças. Eu não quero culpar o
salazarismo por tudo, mas a verdade é que foram 48 anos de não
inscrição, de não acontecimento. E herdámos isso. Ainda não
recuperámos. O ambiente em que vivemos não nos permite ter intensidade
de vida, de pensamento, de acção, para que possamos inscrever-nos na
nossa própria vida, na Europa, no mundo global, etc. Uma vez assisti a
uma entrevista com o jovem físico português, João Magueijo, que vive
em Inglaterra. A repórter perguntava-lhe: "Você trabalha com
matemática, não em laboratórios. Não podia ter descoberto essas
teorias em Portugal?" E ele respondeu imediatamente: "De maneira
nenhuma. Sabe porquê? Por causa da intensidade das trocas de
pensamento em que eu vivo quotidianamente. É isso que me faz pensar."
P. - A influência "do fora".
R. - Absolutamente. É essa intensidade que nos falta. Nós somos tão
inteligentes como os outros. Somos inventivos, produzimos. Mas caímos
nisto.
P. - A incapacidade de agir vem de dentro, do nosso medo. Mas, quando
alguém tenta, o que acontece? Temos a aprovação ou a sanção dos outros?
R. - Uma sanção terrível. É o mecanismo da inveja.
P. - Não agimos, mas também não deixamos ninguém agir. Como funciona
esse mecanismo?
R. - O mecanismo da inveja tem a ver com práticas da magia, o "mau
olhado", o "quebranto", e também com o que em psiquiatria se chama
"transferência psicótica", ou seja, o que passa de uma pessoa para
outra e não é verbal.
Imagine que você chega ao pé dos seus colegas e diz: "Fiz uma
reportagem extraordinária!" E não está a falar por vaidade, mas
objectivamente.
Mas
logo o tipo que está a seu lado diz: "Ai sim? Pois muito bem." E com
este tom introduz em si um afecto inconsciente que o vai paralisar.
P. - É um mecanismo semelhante ao do ostracismo?
R. - Exactamente. Cria-se um ambiente que é hostil à iniciativa e que
tem um efeito sobre a própria vontade de querer fazer. Isto é
generalizado em Portugal. A inveja é mais do que um sentimento. É um
sistema. E não é apenas individual: criam-se grupos de inveja. Várias
pessoas manifestam-se simultaneamente contra a sua iniciativa. Cria-se
um ambiente de inveja. Um grupo determinado age segundo os
regulamentos da inveja.
P. - É uma atitude concertada ou inconsciente?
R. - Pode ser concertada ou inconsciente, mas funciona. Não se permite
que numa empresa, num escritório, ninguém ultrapasse a linha da média
baixa.
Vivemos reconhecendo-nos como irmãos na desgraça.
P. - Mas por que se faz isso? Não seria do interesse de todos
encorajar cada um a fazer melhor?
R. - Sim, mas há um efeito de espelhos. Se você faz alguma coisa de
forte, isso deveria ser um estímulo para mim, para fazer algo também
forte.
Mas
não. Vê-lo forte diminui-me a mim. Vê-lo com intensidade, com
iniciativa, faz-me pensar, por causa da imagem que tenho de mim, na
minha pobre condição, em que não faço nada. E faço tudo para destruir
a sua iniciativa, para que eu possa viver. Você sufoca-me com a sua
energia. Terrível isto.
Uma pessoa sufoca a outra com a sua energia. E o resultado é que
estamos todos sem energia.
P. - Mas para que essa acção da inveja tenha efeito não é necessário
que a "vítima" esteja vulnerável?
R. - Precisamente. Um etnólogo pôs-me essa questão. Disse: só se é
afectado pela inveja quando se quer, quando se está num estado
determinado. Eu
respondo: sim, em quem tem a pele grossa não entra nada. São as
pessoas porosas que são fragéis. E isso é típico de Portugal. Os
portugueses são sensíveis, porque não são maduros. Isso poderia ser
maravilhoso. Somos pessoas de pequenas percepções, de intuições
imediatas, e por isso sentimos quando alguém está a torcer para que
não avancemos. Faz curto-circuito, fecha o espaço das possibilidades.
É um sistema.
P. - Uma espécie de acordo tácito para que ninguém aja, ninguém
ameace, e possamos viver em paz.
R. - Precisamente. Para que possamos viver em paz. Porque temos medo
do conflito.
P. - Daí os "brandos costumes"?
R. - Recusamos o conflito a céu aberto, mas temos uma violência
incrível na nossa sociedade. Violência doméstica em relação às
crianças. Os brandos costumes escondem uma violência subterrânea
enorme.
Publicado por Baski às 08:14 PM | Comentários (1)
January 23, 2005
pAssEio (s) de sInTrA

Publicado por Baski às 11:45 PM | Comentários (2)
lugar de InsÓlitO

Publicado por Baski às 11:38 PM | Comentários (0)
Março - insistente

Publicado por Baski às 11:34 PM | Comentários (0)
January 21, 2005
praia grande - uLiSSeS

nem sempre o que por aqui se passa é assim tão compreensível, assim como os sonhos que não nos deixam adormer.........
Publicado por Baski às 08:14 PM | Comentários (1)
January 16, 2005
Lu..................dancing

Publicado por Baski às 02:10 AM | Comentários (0)
no espaço da acção

Nuno.....no espaço da acção
Publicado por Baski às 02:01 AM | Comentários (1)
January 13, 2005
Praia Grande

Publicado por Baski às 01:31 AM | Comentários (0)
Bom Dia
Bom Dia:

O poema do corpo, dilacerado pela perfeição, é o mundo suportável contido no monólogo monocórdico do silêncio. Na outra face do espelho vão-se definindo os contornos agudos do crepúsculo, e num dia tão pálido como as fronteiras oníricas do cosmos, os cegos tocam as esculturas escatológicas da alma… encharcados de fascinação.
Por Andreia Farinha
Grandes filhos da puta, vocês, que me roubaram a poesia dos pulmões!
Vós, não, caros artistas.
Vós sois imperiais perus estufados, recheados da iniquidade dos pensamentos exímios;
Sumptuosas ideologias, com que se masturbam na opacidade dos candeeiros.
Vós não sois como as outras putas, de vaginas pegajosas e maxilares quadrados. Vós sois uma foda monumental sob a lassidão da seda.
Nada de histerias. No fim, o orgasmo, embrulhado em papel de prata, e um ténue devaneio de pestanas mortas.
Pus-me inteiro dentro da máquina de lavar, e após o demorado processo de centrifugação caí no vómito para a sujidade disto, outra vez.
E num piscar de pálpebras, muitíssimas pupilas… veio a asma.
Grandes filhos da puta, vocês que enchem o ar com o vento podre das vossa bocas.
Não devia dizer. E grito. Venho-me pela boca. A verdade é que vos odeio quase tanto como a mim própria.
Eu sei, caro espectador, conheço no fundo a inutilidade das coisas. As palavras do actor estão sub nutridas de crime.
O corpo do poema é uma selva oca povoada por palavras, que não passam de facas a ostentar o sangue inexprimível do silêncio.
O poema do corpo, dilacerado pela perfeição, é o mundo suportável contido no monólogo monocórdico do silêncio. Na outra face do espelho vão-se definindo os contornos agudos do crepúsculo, e num dia tão pálido como as fronteiras oníricas do cosmos, os cegos tocam as esculturas escatológicas da alma… encharcados de fascinação.
O flamingo partiu as pernas quando uma borboleta lhe interrompeu o coração.
Uma clave de lua dá início ao compasso da naúsea;
As asas a pestanejarem frenéticas ao ritmo da perversidade, e eu digo: … Amo-te! …
E tu com dentes de tigre dizes: Está bem.
E eu digo de repente: E se matássemos a passividade?
No mundo onde as pessoas são até ao pescoço, são até onde se podem encharcar de enjoo. E se estancássemos as cascatas do Niagára? …
Até ao pescoço, para não surgir o vómito à flor dos lábios, que não existem.
E eu digo: E se interrompêssemos o ciclo de baba de cada cão de Pavlov, que desperta desértico ás sete em ponto da madrugada?
Arrancar, um a um, os dentes de ouro ofuscante ao capitalismo.
Mas em vós a indolência considera-se hedonismo. Vós, idílicas meretrizes, jamais promotoras desse embrutecimento, maquilhado de eloquência.
Á luz promíscua dos laboratórios somos assim compelidos a operar corações. Retirar o musgo que entope as veias, aparar os jardins, decepar os corpos erectos dos cactos, plantar mariposas sob o sémen ressequido, e incendiar de febre a esquina que contorna o ventrículo esquerdo.
A presunção excita-me enquanto o ócio lhes corrói os rins. A eles! Não a vós. Não eu, aqui sentada num vão sofá italiano, a fingir que sou actriz.
Eu… a simular o grito. A desembaraçar a espada, num desengonçado gesto de esgrima, a simular o golpe exacto no âmago do sonambulismo. …Tic…
Um olho sujo de pó chorou a maior tempestade de todos os tempos… Tac…
Naturalmente, um big bang interior. Tic Tac.
Tudo despedaçado em mil cometas que decidiram ir dançar no vazio…
Estamos catastroficamente atrasados.
Casa-te comigo! Explode! Entrega esses pulsos dançantes ao gume da máquina e prepara-me aquele sushi de que eu tanto gosto. Sejamos a família feliz.
Os filhos são milhares, metade da cavidade oficial, e os restantes da de cima, a favorita do mau. A mãe tem vindo a enfarda-los ao longo dos séculos, com os epílogos do merchandising do tédio. Agora são todos demasiado flácidos para executarem a fuga. E viverão assim, estrangulados por aquele cruzar de pernas maternal, para sempre.
Bichos esquálidos, de carícias arqueadas. Depois, há que ir ciciando coisas viciosas de ouvir ou de sentir. E é assim.
Acende-se a chuva, os apocalipses sucedem-se, a janela tem vista para um quadro de Pollock, mas ao fundo. Nada de particularmente inquietante, pois vós sois ópio, ou ópera, desassossego cor-de-rosa. Sois trechos da acção e não espectadores alcalinos, e como odeio espectadores! Ouvi dizer que têm uma estranha política de armazenamento, deglutem metade do que vêem, e no tumulto, as balas nunca os atingem, estão demasiado ocupados na auscultação do flagelo. E depois, continuar exaustivamente a sondar a trajectória da menstruação, de mãos desmoronadas. Como autistas sem raiva.
Por Andreia Farinha
Publicado por Baski às 01:06 AM | Comentários (2)